PREVENÇÃO  E  CONTROLE  DE  INFECÇÕES  RELACIONADO  AO  PROCESSAMENTO  DAS  ROUPAS  HOSPITALARES

LORIANE  RITA  KONKEWICZ

Introdução 

Contaminação da roupa

Risco de infecções através das roupas

Cobertores

Esterilização

Área física de uma  lavanderia

Equipamentos e outros suprimentos

Água

Seleção

Recolhimento e transporte (tubos de queda)

Recepção e seleção

Sujeira

Processo de lavagem

Processo após a lavagem

Distribuição e estoque

Descartáveis

Referências Bibliográficas

 

Introdução

As roupas hospitalares representam todo e qualquer material de tecido utilizado dentro de hospitais e que necessitam passar por um processo de lavagem e secagem para sua reutilização. Roupas hospitalares, por exemplo, incluem lençóis, fronhas, cobertores, toalhas, colchas, cortinas, roupas de pacientes e roupas de funcionários, fraldas, compressas, campos cirúrgicos, máscaras, propés, aventais, gorros, panos de limpeza, entre outros. Através desses exemplos pode-se perceber a grande variedade, origem, diferentes utilizações, sujidades e contaminação das roupas utilizadas dentro de hospitais. As roupas hospitalares diferem daquelas utilizadas em outros  tipos de instituições ou residências porque alguns itens apresentam-se contaminados com sangue, secreções ou excreções de pacientes (1) em maior quantidade de contaminação e volume de roupa, mas não diferentemente das sujidades encontradas nas roupas da comunidade em geral.  

 

O processamento das roupas hospitalares abrange todas as etapas pelas quais as roupas passam, desde sua utilização até seu retorno em ideais condições de reuso. Estas etapas são geralmente classificadas em seleção, acondicionamento, coleta e transporte da roupa suja utilizada nos diferentes setores do hospital; recebimento e lavagem da roupa suja na lavanderia; secagem e calandragem da roupa limpa; separação e transporte da roupa limpa da lavanderia para os diversos setores do hospital; armazenamento e controle de estoque da roupa limpa nos setores do hospital. Também podem estar incluídas neste processo a confecção e o reparo das roupas.

 

A lavanderia hospitalar tem o objetivo de transformar toda a roupa suja ou contaminada utilizada no hospital em roupa limpa. Este processo é extremamente importante para o bom funcionamento do hospital em relação a assistência direta ou indireta prestada ao paciente. O processamento de roupas dentro dos hospitais deve ser dirigido de forma que a roupa não represente um veículo de infecção, contaminação ou mesmo irritação aos pacientes e trabalhadores (1, 2, 3).

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Contaminação da roupa utilizada dentro de hospitais

A contaminação da roupa hospitalar depende basicamente da quantidade de sua sujidade e da proveniência desta sujidade. Roupas sujas de fezes, secreções purulentas, urina, sangue, secreções vaginais, uretrais, gástricas e outras secreções e excreções corporais apresentarão muito maior quantidade de microrganismos do que  roupas com sujidade não proveniente de pacientes, como alimentos, líquidos diversos, poeira, etc. Quanto maior a quantidade da sujidade, também obviamente maior será a quantidade de microrganismos presentes na roupa suja.

Um estudo feito por Church e Loosli (4), da Universidade de Chicago, em 1953, demonstrou que roupas hospitalares sujas apresentavam uma média de 2x 10.000 bactérias/100 cm2. Lençóis, fronhas e roupas de pacientes apresentavam maior contaminação do que colchas e cobertores. Lençóis de baixo ou inferiores apresentavam maior número de bactérias do que os superiores e a parte aproximada da cabeceira das roupas de cama também demonstrou maior contaminação do que a parte dos pés da cama. As bactérias mais encontradas neste estudo foram Bacillus sp, Escherichia coli e outros Gram-negativos.

 

Mesmo que o processo de lavagem, centrifugação, secagem e calandragem da roupa sejam os mais adequados possíveis, o resultado final não representa eliminação total de microrganismos, já que não significa um processo de esterilização (1, 2, 3).

No clássico e pioneiro estudo de Arnold, em 1938 (5), as contagens de bactérias, nas suas mais diversas formas, caíram para zero após o último processo de calandragem da roupa, restando apenas formas esporuladas.

Church e Loosli, em 1953 (4), em contraposição ao estudo de Arnold, não demonstraram ausência de contagens bacterianas. A roupa limpa recém processada apresentou variações nas contagens bacterianas de 8x 10 bactérias a 2x 1.000 bactérias/cm2, principalmente por Gram-positivos como Staphylococcus spp. e Streptococcus spp., enquanto as bactérias Gram-negativas foram encontradas em quantidades inexpressivas.

A meta principal a ser atingida após o processamento da roupa deve ser a redução das contagens microbianas para níveis aceitáveis, ou seja, livre de patógenos em quantidade e qualidade suficientes para transmitir doenças (1, 2, 3). Wetzler e colaboradores, em 1971 (6), sugeriram um limite máximo de tolerância de contagens bacterianas de 6x 1.000 esporos de Bacillus spp. por 100 cm2 de roupa limpa.

As contagens de microrganismos na roupa limpa aumentam, entretanto, com o passar dos dias, dependendo das condições de transporte e armazenamento. Neste mesmo estudo de Church e Loosli (4) a análise da roupa limpa colocada sobre camas apresentou aumento de contaminação após 2 a 10 dias sem uso, principalmente as roupas mais expostas.

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Risco de aquisição de infecções hospitalares através das roupas

Apesar da roupa suja ser identificada como fonte de um largo número de certos microorganismos patogênicos, o risco de transmissão de doenças para os trabalhadores do hospital e para os pacientes que mantém contato direto com a roupa é negligenciável (1, 2, 3, 7, 8, 9). Poucos estudos, e não muito recentes, relatam infecção cruzada associada com roupa em pacientes (10, 11, 12) e em trabalhadores de hospitais (13, 14).

Em 1956, Kirby e Corpron (10), da Universidade de Washington, sugeriram a possibilidade de colchões e cobertores contaminados com bactérias coliformes estarem associados com a aquisição de infecções urinárias por estes mesmos microrganismos em pacientes cateterizados.

Em outro estudo, em um hospital de Cleveland, em 1964, Gonzaga e colaboradores (11) associaram a transmissão de Staphylococcus para recém-nascidos através de cobertores, fraldas e roupas contaminadas.

English e colaboradores (12) descreveram, em 1967, a ocorrência de infecção fúngica por Tinea pedis nos dedos e unhas dos pés de pacientes internados em um hospital psiquiátrico de Bristol, Inglaterra, causada por meias contaminadas.

Um surto de gastroenterite por Salmonella typhimurium, que envolveu pacientes e trabalhadores, em um hospital americano, em 1975, foi relatado por Steere e colaboradores (13), no qual a fonte de contaminação para alguns funcionários da lavanderia acometidos pela doença foram lençóis contaminados.

Em um estudo mais recente, de 1994, Standaert e colaboradores (14) demonstraram a transmissão de Salmonella hadar, causando gastroenterite em funcionários da área suja da lavanderia, através do manuseio com roupas contaminadas.

Apesar destes e outros poucos relatos relacionando a aquisição de infecções através da roupa, estudos mais recentes estão deixando bastante evidente que a eliminação da carga microbiana ambiental pouco interfere na diminuição das taxas de infecções nosocomiais (15, 16). Portanto, culturas ambientais de rotina não tem sido recomendadas, o que explica a carência de estudos mais recentes analisando contaminação de roupas hospitalares.

No Hospital de Clínicas de Porto Alegre, o maior número de notificações de infecções em funcionários da lavanderia são pediculoses em cabelos e barbas, escabioses e conjuntivites (dados do Serviço de Medicina Ocupacional e do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do HCPA). 

 

Parece claro que a adoção de rotinas adequadas quanto ao recolhimento, transporte e  processamento da roupa suja, distribuição e armazenamento da roupa limpa, além da proteção adequada dos funcionários que manuseiam com roupa suja, deveria prevenir qualquer potencial de infecção cruzada (8, 9).

O eficiente processamento das roupas hospitalares depende basicamente de uma boa operacionalização do serviço, de adequada área física e equipamentos, administração competente e treinamento de pessoal. A operacionalização da lavanderia abrange todo o circuito da roupa, desde sua utilização nas diversas unidades do hospital, separação e acondicionamento da roupa suja nestas unidades, coleta e transporte, até sua redistribuição e armazenamento após o devido processamento (17). 

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Cobertores como fontes de contaminação

Os cobertores podem freqüentemente representar mais uma fonte de contaminação, uma vez que não são trocados diariamente, nem lavados com muita freqüência. Estudos feitos em Curitiba mostraram que, de uma amostra de 28 cobertores, 100% estavam contaminados, independente de estar em uso ou não (18). Outros estudos anteriormente citados também tem demonstrado contaminação dos cobertores (10,11).

A recomendação, portanto, seria a lavagem dos cobertores após a alta e após qualquer contaminação evidente.

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Esterilização das roupas hospitalares

Como já foi citado anteriormente, o processamento normal da roupa não resulta em eliminação total dos microrganismos, especialmente em suas formas esporuladas. Para isto, seria necessário um processo de esterilização, preferencialmente através de autoclavação a vapor e pressão.

Quando existe possibilidade da roupa entrar em contato com pele não íntegra, áreas cruentas, mucosas e tecidos expostos, necessariamente deve ser prevista sua esterilização. Isto se aplica para procedimentos cirúrgicos, procedimentos invasivos, em queimaduras e outras situações em que ocorra a quebra da barreira de proteção da pele (2, 3, 7, 19).

Mesmo se tratando de pacientes imunodeprimidos, a necessidade de esterilização das roupas se aplica somente para as situações relatadas anteriormente. Esta é uma prática que vem sendo seguida por muitos hospitais brasileiros.

Em outros países se observa a mesma realidade. Um estudo realizado por Meyer e colaboradores (19), em 1981, demonstrou que, apesar das recomendações, de 1977, do uso de roupas esterilizadas para recém-nascidos, pela Academia Americana de Pediatria, 74% dos hospitais americanos, que responderam a um questionário, não seguiam esta recomendação. Neste estudo também foram realizadas culturas das roupas não esterilizadas utilizadas na unidade de neonatologia de um hospital de Indianápolis, que resultou em 68% de culturas positivas. Entretanto, somente 2,5% apresentavam contagens maiores de 20 colônias por placa, com prevalência de Staphylococcus epidermidis, Diphtheroides e Micrococcus spp., ou seja, quantidades muito pequenas de microrganismos para causar infecções . 

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Área física de uma  lavanderia hospitalar 

O processamento da roupa em um ambiente único dentro de lavanderias hospitalares pode propiciar a recontaminação constante da roupa limpa. Um grande número de microrganismos são jogados ao ar durante o processo de separação da roupa suja, contaminando todo o ambiente circundante. Church e Loosli (4) demonstraram que as áreas de seleção de roupa suja e de centrifugação apresentavam maior contaminação do ar, comparadas com as demais áreas.

As descobertas deste e outros estudos similares revolucionaram a planta física das lavanderias hospitalares, as instalações, os equipamentos e os métodos utilizados no processamento das roupas. Em 1986, algumas recomendações a respeito da área física e etapas do pocessamento das roupas hospitalares, foram publicadas pelo Ministério da Saúde, com o objetivo de normatizar e padronizar a organização das lavanderias hospitalares (17).

Para tanto, é indispensável na área física a existência de uma barreira de contaminação, separando a área suja da lavanderia (separação e lavagem da roupa) da área limpa (acabamento e guarda da roupa) (2, 17).

Essa barreira de contaminação só será realmente eficiente se existirem lavadoras de roupa com duas portas de acesso, uma para cada área. Nos hospitais de pequeno porte, que utilizam ainda as lavadoras tradicionais, a barreira de contaminação pode ser efetivada pela delimitação de uma área física especial, ou seja, um espaço intermediário. Neste caso, a área de lavagem estará compreendida entre as áreas de separação (suja) e de acabamento (limpa) (17).

De maneira geral, a lavanderia poderia admitir fluxos em forma de I, L ou U. A precaução fundamental é evitar que a roupa suja cruze ou entre em contato com a limpa (17).

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Equipamentos e outros suprimentos mínimos necessários para o bom funcionamento de uma lavanderia hospitalar

Os equipamentos mínimos necessários para o bom funcionamento de uma lavanderia são: lavadoras, centrífugas, calandras, secadoras, prensas e máquinas de costura. Além disso são necessários termômetros, termostatos e relógios marcadores de tempo (cronômetros) (1, 20, 21, 22, 23, 24).

Não menos importante seriam a rede de esgoto viável, energia elétrica suficiente, iluminação, ventilação e exaustão adequada, além de caldeiras, para aquecimento da grande quantidade de água necessária, e ar comprimido para as máquinas.

Todas as janelas da lavanderia deveriam ser providas de tela, para evitar entrada de insetos.   

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Qualidade da água  utilizada em lavanderias

A qualidade da água utilizada em lavanderias é muito importante para o processo da lavagem. A análise e tratamento da água são indispensáveis, a mesma não devendo conter sais de cálcio e magnésio, ferro, manganês ou matéria orgânica.

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Rotinas de seleção da roupa suja

A seleção dos diferentes tipos de roupa suja, para escolha do método de lavagem adequado, não deveria ser feita na lavanderia, mas no momento do seu acondicionamento nas unidades ou enfermarias (25, 26). Os sacos de pano de “hamper” já deveriam conter identificação quanto ao tipo de roupa que contém, roupa de sujeira pesada, muito contaminada, ou roupa de sujeira leve, pouco contaminada.

Várias publicações tem recomendado e demonstrado que não é necessário separar a roupa proveniente de pacientes em precauções e isolamentos, ou seja, pacientes sabidamente infectados, já que o potencial de contaminação é o mesmo para qualquer roupa que contenha muita sujidade com matéria orgânica (sangue, urina, fezes, secreções e excreções corporais) de qualquer paciente (2, 3, 8, 25).

Weinstein e colaboradores (25) analisaram a contaminação de roupas sujas provenientes de pacientes sabidamente infectados (em isolamento) e provenientes de pacientes não sabidamente infectados. Não encontraram diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos.

Portanto, deve ser considerada contaminada, ou de sujeira pesada, toda e qualquer roupa que apresentar sujidade aparente de sangue, fluidos, urina, fezes, etc...

A roupa que não apresentar este tipo de sujidade aparente pode ser considerada não contaminada ou de sujeira leve. Uma boa forma de caracterização da roupa de sujeira pesada, ou muito contaminada, seria a colocação de um saco plástico dentro do saco de pano de “hamper”, o que inclusive colabora para o não derramamento e extravasamento de sujeira líquida através do saco de tecido e maior contaminação do ar durante o transporte. Este tipo de rotina vem sendo utilizada no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), com bons resultados práticos.

Outras recomendações sugerem identificação dos “hampers” com diferentes cores para cada tipo de roupa ou até para diferentes locais de procedência da roupa (26).

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Rotinas de recolhimento e transporte da roupa suja

O transporte da roupa usada no hospital é um problema muito sério. Trata-se de material contaminado que pode disseminar infecções e trata-se de volume e peso considerável a ser transportado diariamente com intensa manipulação dentro das diversas áreas do hospital e dentro da própria lavanderia.

Quanto às rotinas de recolhimento e transporte da roupa hospitalar, recomenda-se:

- A roupa suja deve ser manuseada e sacudida o menos possível, devendo ser transportada ao serviço de lavanderia em sacos resistentes e bem vedados.

- As roupas sujas devem ser colocadas nas unidades e enfermarias em sacos de pano de “hamper” e alojadas em sala específica para materiais sujos.

- Roupas com sujidade pesada, ou seja, muito sujas com matéria orgânica devem ser acondicionadas com sacos plásticos dentro dos sacos de pano de “hamper”, para evitar extravasamento e risco de contaminação ambiental.

- Os sacos de “hamper” contendo roupa suja devem ser recolhidas pelo pessoal da lavanderia, no mínimo 3 vezes ao dia, para evitar seu acúmulo nas unidades.

- O transporte da roupa suja deve ser feito em carros grandes com rodas, dentro dos setores do hospital.

- Os carros de transporte de roupa suja devem ser devidamente identificados para diferenciá-los dos carros usados para o transporte de roupa limpa, a fim de se evitar uma troca acidental.

- Todos locais e carros utilizados para o recolhimento e transporte da roupa devem ser diariamente lavados com água e sabão.

- Preferencialmente, o fluxo de transporte da roupa suja não deve coincidir com o fluxo da roupa limpa.   

 

Transporte de roupa suja dentro de hospitais -  Uso de tubo de queda ou chute

O uso de tubo de queda ou chute para roupa usada não é permitido segundo Portaria nº 138 do Ministério da Saúde, em virtude da dificuldade de manutenção da limpeza destes tubos e pela camada de ar contaminado que é liberada a cada passagem da roupa.

Entretanto, há poucos estudos que comprovem isto. Alguns estudos relatam contaminação de tubos de queda para lixo com bacilos Gram negativos que levaram a dispersão destes bacilos para o ar e transmissão de Pseudomonas e bacilos entéricos. A massa de lixo nos tubos de queda continham 100.000.000 ufc/g; amostras de ar provenientes dos tubos para as saídas nas unidades continham 150 ufc/g. Depois de fechado o tubo de queda para lixo as contagens microbianas do ar diminuiram em 75% e a incidência de bacteriemias hospitalares por Gram negativos caíram mais de 65% (27).

Estudos específicos para tubos de queda utilizados para roupa suja relacionados a contaminação do ar dificilmente são encontrados.

Michaelson (28) relatou a diminuição de 60% da contaminação do ar através da instalação de um sistema de exaustão no chute utilizado para transporte de roupa suja num hospital de Minneapolis. Antes da reforma do chute, culturas do ar demonstraram que os mesmos microrganismos que chegavam ao fundo do tubo de queda estavam presentes depois de minutos no terceiro e quinto andares do prédio, próximos à saída do chute. O uso de sacos plásticos para acondicionamento da roupa suja também colaborou para a diminuição em 73% da contaminação do ambiente na sala de queda das roupas sujas do chute. 

A despeito destes fatos, pela facilidade prática, alguns hospitais ainda mantém o sistema de tubos de queda para roupa usada.

No Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) a opção pelo tubo de queda ocorreu por ser um hospital de grande porte, vertical, com muitos andares, onde o transporte da roupa usada através de carros passaria por muitos corredores e elevadores, provavelmente cruzando com o fluxo da roupa limpa, de pacientes e outros materiais considerados limpos.

Em 1992, estudos foram realizados no HCPA, pelo Serviço de Controle de Infecção Hospitalar, conjuntamente com o Serviço de Higienização, Serviço de Processamento de Roupas e Grupo de Engenharia, na tentativa de comprovar os riscos relacionados ao uso do tubo de queda para transporte de roupa suja. A necessidade destes estudos vieram pelo questionamento da adequação à Portaria Ministerial. Nestes estudos conseguiu-se provar que os tubos de queda não se encontravam com suas paredes internas sujas, como se esperava. Foram jogados vários sacos de tecido branco limpos, preenchidos completamente com roupas molhadas, através dos tubos. Os sacos chegaram até a saída do tubo ainda totalmente limpos. A explicação para tal fato ocorre provavelmente pelo princípio físico no qual os sacos de “hamper” ao descer pelo tubo de queda atingem um peso e uma velocidade tal que o seu contato com a superfície interna do tubo é mínima, pelo vácuo que se forma. Desta forma as superfícies internas do tubo dificilmente acumulam sujidade que pudesse ser despejada pelos sacos com roupa suja, tipo sangue, urina ou outros fluidos.

Além disto, foi instituída uma rotina de acondicionamento de todas as roupas com sujidade pesada em sacos plásticos, que resultaria em menor contaminação ambiental.

Obviamente a instalação destes tubos deveria exigir alguns requisitos, como por exemplo, diâmetro adequado, superfície interna lisa e lavável, portas nos andares com boa vedação, saída nas unidades em salas não próximas das áreas de pacientes, saída inferior localizada em sala afastada de locais considerados limpos. Além disso, as roupas sujas jogadas nos chutes devem sempre estar acondicionadas de forma a não permitir o espalhamento excessivo de ar ou líquidos contaminados (2, 28).

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Rotinas de recepção e seleção da roupa suja na lavanderia

Na área de separação, a roupa suja é separada para ser colocada na máquina. O manuseio da roupa suja deve ser o mínimo possível, apenas o necessário para perfeita colocação das roupas na máquina e para identificação de objetos estranhos colocados erroneamente nos sacos de “hamper”. Seria recomendável o uso de detector de metais, para evitar o manuseio excessivo. As roupas não deveriam ser contadas, também para evitar mais manuseio.

Os funcionários responsáveis pela recepção, separação e seleção da roupa suja devem usar vestimenta especial que os proteja do contato com a roupa suja, ou seja, avental impermeável, luvas de borracha, gorro, botas de borracha, máscaras e óculos de proteção (1, 2, 3, 8, 9, 26).

Apesar de que as maiores evidências relacionam os riscos de transmissão de infecções para os funcionários através do contato da pele com as roupas contaminadas (13, 14), as outras formas de transmissão não podem ser negligenciadas, como a transmissão pelo ar ou pelo espirramento de secreções em mucosas (olhos, boca, etc.), daí a importância de máscaras e óculos de proteção. É importante também lembrar o risco de transmissão de infecções em cabelos e pelos, causadas por parasitas, como por exemplo pediculose, especialmente para trabalhadores homens que tem barba. No HCPA, como já relatado anteriormente, as infecções mais comuns em funcionários da lavanderia são pediculoses em cabelos e barbas, escabioses e conjuntivites, muito provavelmente causadas pela falha na adequada proteção. 

A freqüente lavagem de mãos pelo pessoal que manuseia com roupa suja também é essencial para a prevenção das infecções (1, 2, 3, 8, 26).

Os acidentes pérfuro-cortantes representam um sério risco de aquisição de infecções transmitidas pelo sangue e outros fluidos corporais (vírus HIV, hepatites e outros) para os funcionários que manuseiam com a roupa suja, nas quais podem ter sido inadvertidamente desprezadas agulhas ou outros materiais cortantes contaminados. Medidas de precauções universais tem sido amplamente recomendadas para a diminuição destes riscos (9).   

Os sacos de “hamper” contendo roupa suja deveriam possuir identificação da unidade de procedência. No caso de serem encontrados objetos estranhos dentro dos sacos, as unidades poderiam ser cobradas, como medida educacional, no sentido de evitar que estas falhas se repitam, colocando em risco a saúde ocupacional dos funcionários da lavanderia, além de danificar roupas e máquinas. Recomendações deste tipo tem sido utilizadas em vários hospitais e podem a princípio parecer duras, mas são extremamente necessárias (29).

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Classificação das sujeiras  

É importante classificar as sujeiras para se adotar o método correto de eliminá-las. De forma geral as sujeiras se classificam em (20):

- Sujeiras solúveis na água (açúcares, sais, sucos de frutas, corantes, etc...): sua eliminação se efetua básicamente por enxagues.

- Sujeiras saponificáveis (matérias gordurosas): a ação do calor, combinada com a dos álcalis e a agitação mecânica, amolece as gorduras, saponifica-as e remove-as.

- Sujeiras emulsionáveis (óleos minerais): a sua estrutura química só permite sua eliminação através da emulsificação, por ação dos tensoativos.

- Sujeiras eliminadas por via física (areia, fuligem, poeira,...): sua eliminação ocorre pela ação mecânica combinada com o poder umectante de um produto tenso ativo.

- Sujeiras eliminadas por descoloração (chá, café, vinho, medicamentos,...): não são removíveis pois tingem a fibra. É necessário, então, destruir a cor através de agentes de branqueamento (hipoclorito de sódio, perborato de sódio e outros).

- Sujeiras ou matérias albuminóides (albumina, sangue, plasma,...): coagulam e dissolvem-se através do calor e soluções alcalinas.

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Processo de lavagem da roupa suja

A lavagem é o processo que consiste na eliminação da sujeira fixada na roupa, deixando-a com aspecto e cheiro agradáveis, confortável para o uso e com níveis microbiológicos reduzidos aos limites aceitáveis.

Existem vários processos de lavagem de roupa, daí a necessidade da classificação da mesma, que é feita dependendo do grau de sujidade, do tipo de tecido e do tipo de equipamento.

O processo de lavagem mecânica da roupa associado ao uso de água quente e detergente efetivos é essencial para remover a contaminação bacteriana da roupa. Um termômetro acurado deveria ser usado para medir a temperatura da água. Temperaturas da água acima de 71ºC durante 25 minutos tem sido recomendadas (2, 3), desde os estudos de Arnold (5). Outras publicações recomendam temperaturas de 80, 85 a 95ºC durante 15 minutos (17, 20).

Estudos mais recentes relatam bons resultados com a associação de detergentes a temperaturas mais baixas do que 71ºC, desde que as concentrações e quantidade dos detergentes sejam bem controladas (2, 3). Tompkins (30) relatou a prática do uso de lavagens de roupas hospitalares a temperaturas de 40ºC, adicionadas de cloro, que vem sendo adotada em hospitais suíços há muitos anos. No seu estudo foi comparada a adição de diferentes desinfetantes, cloro e triclosan, ao processo de lavagem, sem diferenças importantes na redução das contagens microbianas.

Outro estudo interessante sugere a ineficácia das lavagens a seco na redução e eliminação de muitos microrganismos, especialmente alguns tipos de vírus (31).

Todos estes estudos, apesar de ainda questionáveis, tem merecido particular atenção para futuras propostas de novos métodos de lavagem, não só levando em conta a descontaminação da roupa, como na tentativa de diminuir o tempo nos processos de lavagem e a diminuição da danificação e presença de resíduos tóxicos e irritantes na roupa.

Cada fase dentro das máquinas de lavagem da roupa deve seguir padrões de temperatura e tempo bem definidos. As temperaturas mais elevadas ocorrem na fase de lavagem, devendo a água permanecer em temperaturas mais baixas durante as demais fases, para não danificar excessivamente a roupa.

Basicamente, deve-se distinguir os processos de lavagem em ciclos para lavagem de roupa com sujidade leve ou sujidade pesada, dependendo da quantidade de sujeira aparente na roupa. Toda roupa com mais de três pontos de sujeira visível de sangue, fezes, urina, secreções e outros fluidos já pode ser considerada roupa de sujidade pesada.

- Ciclo para lavagem de roupa com sujidade leve:

         - lavagem

         - alvejamento/desinfecção

         - 1º enxague e 2º enxague

         - acidulação

         - amaciante/desinfecção

- Ciclo para lavagem de roupa com sujidade pesada:

         - umectação

         - 1º enxague e 2º enxague

         - pré-lavagens

         - enxague

         - alvejamento/desinfecção

         - lavagem

         - 1º enxague e 2º enxague

         - acidulação

         - amaciamento /desinfecção

 

Os produtos químicos utilizados na fase de lavagem são o sabão (soda cáustica + ácidos graxos) ou detergentes sintéticos (soda cáustica + ácido duodecil benzenosulfato).

Durante o alvejamento são utilizados produtos que contém cloro, como hipoclorito de sódio ou perbonato de sódio. Esta fase colabora para o branqueamento da roupa e fundamentalmente para a redução da sua contaminação microbiana.

A acidulação consiste em adicionar um produto ácido, em geral a base de ácido acético, para baixar o pH e neutralizar os resíduos alcalinos da roupa.

Na última fase, de amaciamento, se adicionam produtos a base de glicerina para produzir o amolecimento ou elasticidade das fibras, tornando o tecido suave e macio. 

Na fase de secagem, a temperatura da máquina varia de 20 a 150ºC. Os filtros da máquina secadora devem ser limpos a cada processo de secagem, pois o acúmulo de penugem e poeira nestes filtros poderia recontaminar a roupa ou espalhar-se para o ambiente.

As máquinas que fazem todas as operações inclusive a secagem, são as mais indicadas na prevenção contra a contaminação, pois evitam o transporte da roupa já lavada de uma máquina para outra, por exemplo, da máquina lavadora para a máquina secadora e daí para a calandra.

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Etapas do processamento da roupa após a lavagem

Após a operação de lavagem a roupa passa por processos de centrifugação, calandragem, secagem e prensagem. Todos estes processos se efetuam na área limpa da lavanderia. É fundamental que os funcionários desta área não entrem em contato com os outros  que estão trabalhando na área suja. Os funcionários  da área limpa devem usar uniformes específicos para esta área. Também não devem existir correntes de ar entre as áreas suja e limpa.

 

A centrifugação representa um ponto de recontaminação da roupa, devido ao fato de que a centrífuga aspira centenas de metros cúbicos de ar ambiente, o qual estando contaminado necessariamente aumentará o número de microrganismos na roupa (4). O seguinte quadro, extraído dos estudos de Church e Loosli (4), demonstra claramente a centrifugação como ponto de recontaminação:

 

    Etapas              Microorganismos por cm2 de tecido

antes da lavagem                            2.000

após a lavagem                                   10

após a centrifugação                       2.300

após a calandragem                             30                      

 

A fase de calandragem é extremamente necessária no processo de descontaminação da roupa. A temperatura da calandra deve chegar a 160ºC.

As roupas que não podem ir para a calandra, devem ser passadas pelo método de ferro elétrico, para que recebam mais um processo de descontaminação.

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Rotinas de distribuição e estoque da roupa limpa

A roupa limpa  deve ser transportada de forma a evitar a recontaminação, através de carro vedado, não permitindo entrada de poeira durante o transporte. Não deve ser utilizado o mesmo carro de transporte da roupa suja (2).

Durante o armazenamento, deve-se evitar a recontaminação da roupa limpa, isolando-a dos locais da roupa suja. O local para estoque da roupa limpa deve estar protegido de intensa circulação de ar, em salas limpas, fechadas. Os armários para estoque da roupa limpa devem ser fechados, não permitindo entrada de poeira e insetos.   

Quanto maior o período de estocagem, maior a probabilidade de recontaminação da roupa. Conforme já citado, pelos estudos de Church e Loosli (4), as roupas limpas podem sofrer diferentes níveis de recontaminação a partir de dois dias. O período de estocagem, por convenção, poderia, então, ser estabelecido em 24 a 48 horas.

O estoque da maior parte da roupa limpa deve ser centralizado na lavanderia. As unidades ou enfermarias devem possuir um estoque de roupa para mais ou menos 24 a 48 horas.

A distribuição da roupa limpa deveria, portanto, ser feita 1 vez ao dia para o estoque principal e, se necessário, outras vezes para complementação.

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Uso de roupas descartáveis

A opção pelo uso de roupas descartáveis deve ser avaliada do ponto de vista econômico, praticidade, qualidade, capacidade operacional da lavanderia, espaço para estocagem, além de outros. Dependerá, obviamente, dos recursos disponíveis em cada instituição (2).

Atualmente encontramos disponível no mercado nacional diversos tipos de pequenos itens de roupa hospitalar a preços acessíveis, como por exemplo, máscaras, gorros, propés, fraldas. A confecção e processamento destes acessórios pode se tornar mais demorada, mais trabalhosa e resultar em menor qualidade e segurança do que o uso de descartáveis.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1.    BARRIE D. How hospital linen and laundry services are provided. J Hosp Infection. 1994, 27: 219-235.

 

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